quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Análise de obra significativa – Sebastião Salgado


IMAGEM ESCOLHIDA:


























Introdução

Sebastião Ribeiro Salgado (Aimorés, 8 de fevereiro de 1944) é o maior destaque da história da fotografia no Brasil. Apesar de não participar de nenhum movimento fotográfico, destaca-se no cenário mundial por suas exposições de obras realistas que demonstram o dia-a-dia da parcela mais humilde da população de forma “nua e crua”, sem perder, porém o senso poético e romântico.

Formado em economia pela Universidade de São Paulo e tendo trabalhado na Organização Internacional do Café em 1973, trocou a economia pela fotografia após viajar para a África levando emprestada a câmera fotográfica de sua mulher, Lélia Wanick Salgado.

Em 1986, publicou seu primeiro livro, “Outras Américas”, sobre a pobreza na América Latina. Posteriormente publicou livros de sucesso como “Sahel: O Homem em Pânico”, “Trabalhadores rurais” e “Êxodos”.

Trabalhando apenas com as cores preto e branco, sua determinação em mostrar o significado mais amplo do que está acontecendo com a parcela menos favorecida da sociedade criou um conjunto de imagens que testemunham a dignidade fundamental de toda a humanidade e protestam contra a violação dessa dignidade por meio da guerra, pobreza e outras injustiças.

Sebastião Salgado e sua mulher também contribuem generosamente com organizações humanitárias, como a UNICEF, a ACNUR, a OMS e a ONG Médicos sem fronteiras e a Anistia Internacional, além apoiar projetos de reflorestamento e revitalização comunitária.

Em setembro de 2000, com o apoio das Nações Unidas e do UNICEF, Sebastião Salgado montou uma exposição no Escritório das Nações Unidas em Nova Iorque, com 90 retratos de crianças desalojadas extraídos de sua obra “Retratos de Crianças do Êxodo”. Ainda doou os direitos de reprodução de várias fotografias suas para o Movimento Global pela Criança e para ilustrar um livro da moçambicana Graça Machel sobre o “Impacto dos Conflitos Armados sobre as Crianças”.

Sebastião Salgado recebeu praticamente todos os principais prêmios de fotografia do mundo e fundou em 1994 a sua própria agência de notícias, “Imagens da Amazônia". Salgado e sua esposa Lélia Wanick Salgado, autora do projeto gráfico da maioria de seus livros, vivem atualmente em Paris e têm dois filhos. Atualmente, o fotógrafo trabalha em um projeto chamado “Genesis”, e, em conjunto com a UNICEF e com a OMS, documenta uma campanha mundial para a erradicação da poliomilite.



Dados principais da obra escolhida

Sebastião Salgado publicou várias fotografias sobre a Serra Pelada. Em nosso trabalho analisaremos a fotografia “The Serra Pelada Gold Mine”, fotografada no Brasil, no estado do Pará (cidade de Curionópolis), no ano de 1986 e publicada no livro “Trabalhadores”. Esta imagem é uma das melhores já fotografadas sobre o local e costuma habitar os livros de História. Veja abaixo, mais imagens de Sebastião Salgado sobre Serra Pelada.


Descrição do motivo fotográfico

A imagem retrata a exploração a céu aberto, apresentando mineradores com péssimas condições de trabalho, vestidos com roupas sujas e rasgadas, subindo e descendo a mina incessantemente e desenvolvendo muito esforço físico, estando todos suados. Carregam nas costas sacos, na tentativa de encontrar pepitas de ouro. A imagem tem relevância histórica por retratar o maior garimpo a céu aberto do mundo. Ao mesmo tempo em que demonstra o sofrimento dos trabalhadores, faz referência à forma brusca como a natureza foi destruída para tal atividade econômica. Esta foi considerada uma “corrida do ouro moderna”.




Elementos da composição da imagem

Escolhemos esta obra pois ela nos impressionou muito quanto a sua composição artística.

Inicialmente, é necessário ressaltar que não há um único elemento “massa” como na maioria das fotografias, mas sim, uma série de elementos “massa”, isto é, há uma grande quantidade de elementos que ocupam áreas volumosas da imagem: os trabalhadores da mina. Além disso, os elementos massa estão em movimento. Isto tudo atrai a atenção do observador em diferentes áreas da figura.

Colocamo-nos então a questionar a habilidade e precisão do fotógrafo, afinal, é muito difícil conseguir equilibrar uma grande quantidade de elementos massa em uma imagem qualquer. Considerando ainda que estes elementos estão exercendo movimento contínuo e que o fotógrafo teve de capturá-los em um instante em que pudesse distribuí-los adequadamente na imagem, entendemos a dificuldade enfrentada por Salgado e acreditamos que ele tenha feito várias tentativas para chegar a tal resultado. Isto talvez justifique por que Henri Cartier-Bresson quis nomear seu livro de fotografias como “O instante dado”: Os enquadramentos perfeitos estão presentes em várias situações cotidianas, mas o fotógrafo tem de ser muito hábil para conseguir perceber o momento em que todos os vários elementos massa se movimentam de forma favorável para a captura de uma boa imagem.

Por ser uma fotografia, apresenta poucas linhas horizontais e verticais, sendo muito difícil identificar as linhas presentes na composição. Os focos de luz zenital produzem sombras e as áreas de sombreamento dificultam a observação destas linhas.

A perspectiva que conseguimos observar é então de massa e não de linha ou de tom. Mas o que exatamente significa afirmar que uma foto possui “perspectiva de massa”? Significa que Salgado arranjou a cena de moda a alcançar uma ilusão de profundidade. Isto fica bem claro quando pensamos no volume dos elementos organizados na parte de baixo da imagem em relação aos organizados na parte de cima. Repare que na parte debaixo da imagem, os trabalhadores estão “maiores” do que os que estão em cima. Ali o fotógrafo arranja uma ilusão de profundidade.

A iluminação é feita a partir da luz natural, isto é, da luz do Sol. Estudando a composição artística, percebemos que em qualquer fotografia, efeitos de luz causarão algum tipo de sombra. Ali, no caso, a luz é Zenital (vem de cima para baixo) o que permite a ocorrência de sombra sob o corpo dos trabalhadores.

Por ser uma obra em preto e branco, é possível se perceber uma variação incrível de níveis de cinza determinada pelos nuances intermediários entre os próprios preto e branco, os limites da tonalidade. Assim, podemos dizer que Salgado, ao usar o preto e o branco em suas obras, tem objetivos. Primeiramente (e mais óbvio), quer realçar os contrastes sociais e exprimir a tristeza em sua fotografia, claro, sem perder a veia poética. Porém, ao utilizar estas cores, ele alcança uma grande variação de tonalidades também, o que beneficia a composição.

Bom, percebemos que toda a obra compôs-se muito bem, mas tudo poderia ter sido perdido por um simples detalhe: O foco. Focalizar consiste em “ajustar o sistema de lente da câmera para o objetivo ser visualizado com nitidez”, isto é, o foco é utilizado para atribuir mais nitidez na área da imagem que se quer privilegiar. Alguns fotógrafos ainda usam um efeito chamado “profundidade de campo” no qual as áreas mais distantes do primeiro plano ficam “desfocadas” ou vice-versa. Não é o caso de Sebastião Salgado. Ele possui uma grande quantidade de elementos “massa” e focaliza todos eles, com o mesmo objetivo já citado: atrair a atenção do espectador em diversos pontos.

Ponto de vista

Nesta imagem, o fotógrafo não participa da cena e as personagens (garimpeiros) fotografadas não estão cientes da presença do fotógrafo, ou, se estão, não dão importância, e continuam seu trabalho.

É possível perceber o posicionamento do artista em relação ao das personagens devido a noções de profundidade e de perspectiva de massa já citadas anteriormente. Como já explicamos, se traçarmos uma reta que divida a obra em dois hemisférios de área igual, perceberemos que os mineradores da porção superior da imagem, exercem menor volume do que os da parte inferior, o que demonstra que as personagens na parte mais baixa da imagem estão mais próximos da câmera, tanto que estão “maiores”. Ora, se podemos afirmar que os mineradores da parte inferior estão mais próximos da câmera, podemos afirmar também que a câmera está na parte inferior da imagem.

Percebemos ainda que a obra retrata uma “cena contínua”, isto é, mesmo fora do campo de visão da câmera, há pessoas trabalhando, embora não possamos vê-las. Podemos assim, imaginar o fotógrafo no meio de vários trabalhadores esperando o momento certo para capturar a imagem.

Análise crítica

A obra transmite ao espectador um olhar diferenciado do mundo. Demonstra que aquele mundo restrito e consumista em que vivemos é uma pura e drástica ilusão. Faz-nos ter vergonha de nossa contribuição, planejada ou não, direta ou indireta, para a existência de tal desigualdade e nos traz uma sensação de remorso e de desesperança, junto a vontade de construir um mundo melhor. O que para muitos não passa de uma fotografia triste e dramática, é, na verdade, muito mais do que isso: um retrato da realidade.

Embora muitas pessoas consigam olhar a obra e não sentir nada, talvez por preferirem não vir a realidade à sua volta, o artista planeja muito mais do que trazer às pessoas uma situação dramática, mas sim despertá-las para o universo real.

Ao longo de nossa pesquisa sobre vida e obra de Sebastião Salgado, observamos uma exposição virtual de “Fotografia de crianças no êxodo”, e, não eram poucos os comentários de pessoas relatando que depois de ver tais imagens sentiram vergonha da despreocupação da sociedade de uma forma geral, e da qual nós fazemos parte, quanto a situação de muitas pessoas no nosso próprio país, passando fome e sede.

Ao ver tantas pessoas maltrapilhas em busca da riqueza, percebemos a qual ponto o capitalismo chegou bem em frente ao nosso nariz, sem que pudéssemos enxergá-lo por estarmos preocupados demais em viver a nossa fantasia. Imaginamos então pais de família, tentando alimentar filhos e esposas, sem perder, apesar de todo o sofrimento, o que muitos de nós já perdemos: a esperança.

Lembramo-nos ainda das várias vezes em que depositamos a culpa da destruição da natureza, nestes pobres trabalhadores em busca de uma vida melhor, esquecendo-nos, que se não fosse por nós, cidadãos classe média, valorizarmos tanto estes minerais, isto não aconteceria. Ignoramos também o fato de que a destruição da natureza está presente em nosso próprio dia-a-dia das mais variadas formas, desde a compra de um produto qualquer, até seu envio para o lixo, e então, quando não mais queremos ver a nossa culpa, depositamo-a nestes pobres pais de família.

Salgado é talvez, apenas mais um de nós, possuindo apenas um diferencial: a esperança de conseguir, por meio de suas fotografias, mostrar à todos que o mundo não é essa fantasia que vemos em novelas e filmes. Talvez por testemunhar a dignidade da qual cada pessoa tem direito, ele possua uma alma tão pura e ajude a tantas organizações humanitárias.

Gostamos muito da imagem, justamente pelo que ela nos desperta, pelo seu equilíbrio na composição, pela sua veia poética e pela mensagem transmitida.



"Mais do que nunca, sinto que a raça humana é somente uma. Há diferenças de cores, línguas, culturas e oportunidades, mas os sentimentos e reações das pessoas são semelhantes. Pessoas fogem das guerras para escapar da morte, migram para melhorar sua sorte, constroem novas vidas em terras estrangeiras, adaptam-se a situações extremas…"

Sebastião Salgado

Bibliografia

http://pt.wikipedia.org/wiki/Sebasti%C3%A3o_salgado

http://pt.wikipedia.org/wiki/Serra_pelada

http://kapirasongkritika.files.wordpress.com/2009/08/salgado_serra_pelada.jpg

http://foruns.terravista.pt/SForums/$M=readthreadrep$TH=1538131$F=45310$ME=4914401$P=2

http://pt.wikipedia.org/wiki/Foco

http://www.willians.pro.br/composi.htm

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